"Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo à colunas de mármore, quanto mais à corações de cera! São as feições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para circunferencia, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco com que já não atira; embota-lhe as setas com que já não fere; abre-lhe os olhos com que vê o que não via; e faz-lhe crescer asas com que voa e foge.
A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas: descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor! O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos."
Pe. Antonio Vieira.
domingo, 28 de março de 2010
tic-tac

Sou uma interrogação vazia
Para a qual nenhuma resposta se apresenta
Me movendo sem direção entre um minuto e outro
Entre as horas, os dias, os anos
Sem a lugar nunhum chegar
Vivo uma vida feita de momentos roubados
Dessa louca engrenagem do tempo.
Dentro de uma lógica desconexa
Busco em vão um sentido
Enquanto a areia do tempo
Escorre de minhas veias.
sábado, 27 de março de 2010
Hoje

Hoje é só mais um dia de olhos nublados
Mais um dia de caminhos ocultos pela névoa
Que me aprisiona nesse ponto escuro
De onde não consigo regressar, nem seguir.
Hoje é só mais um dia de lamentos mudos
Hoje é só mais um dia de lamentos mudos
De lágrimas invisíveis
De feridas sangrentas disfarçadas pela pele que visto
Mas um dia onde nada faz sentido
a não ser a dor que carrego comigo.
Mais um dia que suplico
Mais um dia que simplesmente sou ignorada
Mas um dia onde não tenho ninguém comigo
Mais um dia que até você está ausente
(minha última esperança)
Hoje é só mais um dia
E como os outros mais nada
Mais um dia que terei que colocar minha máscara e fingir viver
Mais um dia em que teimarei em continuar buscando
Mais um dia onde nada encontrarei.
by Milena
sexta-feira, 26 de março de 2010
eterno ar (eter-no-ar)
Condenação

Condenação
De
um grito ela despertou de uma parte de si forçosamente adormecida. Sôfrega
libertou-se da força através da qual a outra de si reinava em um reino ao qual
despreza, mas sem o qual não se reconhecia. Paredes grossa de frias pedras...
constituintes de um reino de amarras de
um eu por si livre...
Desse
grito agora reconhecia o eco de um explícito e suspeito desejo que a convidava
a riscos insondáveis... um abismo em que outrora facilmente se jogaria:
verdadeiro reino de sua ambição.
De
outra parte, tão insondável quanto os mais profundos segredos que nem a nós
mesmos nos revelamos, ela se dividia entre a dúvida e dádiva, não importava se
a eternidade não passava de algumas semanas ou de alguns dias... tão
indefinível eram os sentimentos que a moviam, tão ambígua era a matéria pela
qual se forjava... ou simplesmente tão orgulhosamente seu “eu” era.
Em
meio a um tempo infinitamente apático se regozijava com a dádiva... em meio a
segurança possuída se angustiava com a dúvida. Em meio a uma e outra se perdia
e se encontrava sem conseguir definir quem realmente era: Rainha ou escrava de
seu reino? Súdita dos seus súditos?
Fora
do seu reino, a liberdade; fora da liberdade, o seu reino. Eis a condição à
qual se condenava.
by Milena.
(29/09/09)

Lígia
Há dias que Lígia não conseguia dormir bem, escutando aquela moribunda que agonizava suas últimas horas de vida. Por mais que estivesse distante, o som de seus lamentos, de sua agonia, de sua dor, chegava até ela. Pelo que sabia a velha senhora tinha sofrido uma queda e quebrado o fêmur, três cirurgias consecutivas não resolveram o problema, mas parecia agora que faltava pouco para o sofrimento daquela velha senhora findar.
Lígia sofria por aquela velha senhora. Pelo que soubera tinha tido uma vida muito solitária. Não tinha filhos, o marido a abandonara já havia algum tempo, e agora dependia da caridade de um parente distante... O pior da existencia é a consciencia de uma morte bem vinda.
Apesar de já ser muito tarde, uma música lhe chegava aos ouvidos, vinda de longe. de repente, lembranças surgiram na memória de Lígia. Aquela até parecia a trilha sonora do melhor tempo de sua vida. Imagens se entrecortavam em seu pensamento: tanta vida, tanta alegria, sorrisos insinuosos, olhares e intençoes quase secretas. Tudo parecia pulsar num ritmos alucinante, e tudo era de um colorido berrante, mesmo sob a lente cinza que costumava usar... Novamente aqueles lamentos da velha moribunda, ainda bem que aquilo estava prestes a terminar, lamentava pela coitada, mas já não aguentava mais tantas noites insones por causa daqueles lamentos.
Mas parecia que finalmente iria conseguir dormir, um leve e agradável torpor abatia-se sobre ela, já não sabia se rememorava ou se sonhava, sob a chuva naquele gramado, as árvores cercando todo o parque enquanto o sol se insinuava entre as nuvens, Lígia rodopiava, rodopiava e rodopiava, sorrindente quase flutuava. Em meio a tudo isso, vindo de muito longe ouviu o último suspiro daquela velha senhora, estava finalmente livre...
Na manhã seguinte o enterro. Poucas pessoas compareceram. uma rosa vermelha solitária sobre a lápide parecia lamentar pela defunta. O epitáfio, sem data de nascimento, nem de falecimento, como se ela fosse atemporal, era de uma doce simplicidade: aqui jaz Lígia.
by Milena
(29/02/2008)
Há dias que Lígia não conseguia dormir bem, escutando aquela moribunda que agonizava suas últimas horas de vida. Por mais que estivesse distante, o som de seus lamentos, de sua agonia, de sua dor, chegava até ela. Pelo que sabia a velha senhora tinha sofrido uma queda e quebrado o fêmur, três cirurgias consecutivas não resolveram o problema, mas parecia agora que faltava pouco para o sofrimento daquela velha senhora findar.
Lígia sofria por aquela velha senhora. Pelo que soubera tinha tido uma vida muito solitária. Não tinha filhos, o marido a abandonara já havia algum tempo, e agora dependia da caridade de um parente distante... O pior da existencia é a consciencia de uma morte bem vinda.
Apesar de já ser muito tarde, uma música lhe chegava aos ouvidos, vinda de longe. de repente, lembranças surgiram na memória de Lígia. Aquela até parecia a trilha sonora do melhor tempo de sua vida. Imagens se entrecortavam em seu pensamento: tanta vida, tanta alegria, sorrisos insinuosos, olhares e intençoes quase secretas. Tudo parecia pulsar num ritmos alucinante, e tudo era de um colorido berrante, mesmo sob a lente cinza que costumava usar... Novamente aqueles lamentos da velha moribunda, ainda bem que aquilo estava prestes a terminar, lamentava pela coitada, mas já não aguentava mais tantas noites insones por causa daqueles lamentos.
Mas parecia que finalmente iria conseguir dormir, um leve e agradável torpor abatia-se sobre ela, já não sabia se rememorava ou se sonhava, sob a chuva naquele gramado, as árvores cercando todo o parque enquanto o sol se insinuava entre as nuvens, Lígia rodopiava, rodopiava e rodopiava, sorrindente quase flutuava. Em meio a tudo isso, vindo de muito longe ouviu o último suspiro daquela velha senhora, estava finalmente livre...
Na manhã seguinte o enterro. Poucas pessoas compareceram. uma rosa vermelha solitária sobre a lápide parecia lamentar pela defunta. O epitáfio, sem data de nascimento, nem de falecimento, como se ela fosse atemporal, era de uma doce simplicidade: aqui jaz Lígia.
by Milena
(29/02/2008)
Flores de gelo

É novamente inverno em minha alma
Novamente colho minhas flores de gelo
No meu jardim infinitamente colorido de cinzas
Novamente chove em meu coração
Uma tempestade que me alaga os olhos
Ao lembrar daqueles dias felizes
Que minha alma não soube compreender
Daqueles de sol
Em que ela teme se aquecer
Pois é gélida a chama que lhe alimenta
No frio tormento em que se conserva
E que só sobrevive enquanto se consome.
by Milena
(03/05/2003)
Novamente colho minhas flores de gelo
No meu jardim infinitamente colorido de cinzas
Novamente chove em meu coração
Uma tempestade que me alaga os olhos
Ao lembrar daqueles dias felizes
Que minha alma não soube compreender
Daqueles de sol
Em que ela teme se aquecer
Pois é gélida a chama que lhe alimenta
No frio tormento em que se conserva
E que só sobrevive enquanto se consome.
by Milena
(03/05/2003)
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